Cantinho da Poesia

Aqui também tem poesia. Esta é a minha predileta:

"Entre o Céu e a Terra"
– Osmar Barbosa
Conversavam durante o despontar da aurora, uma Estrela, uma Pérola, uma Lágrima e um Orvalho. Dizia ufana a Estrela:
"Quem diria que eu tivesse o trabalho de descer das alturas luminosas, para vir conversar com vocês três?... Não sabem que sou eu mais alta do que as nuvens, e que posso talvez fazer extasiar toda a amplidão?... Não venho de uma existência transitória. Desde que o mundo existe, acendo o firmamento por entre o universal deslumbramento... Qual de vocês terá tamanha glória, se não passam do chão?"

Mas, respondeu a Pérola vaidosa:
"Tu, Estrela? Tu não passas de um grão de resplendor, metido na poeira do infinito... Não és senão insignificante mosquito... Enquanto eu, lá no fundo dos oceanos, sou buscada e vendida aos soberanos, para ornar com reflexos siderais as coroas reais... Valho mais do que tu, Estrela... E mais ainda valho, que um simples Orvalho, pequenas gotas d’água de mínimo valor..."

Disse o Orvalho com mágoa:
"Nenhuma de vocês possui o encanto de se destilar em forma de beijos na face veludínea de uma flor... Eu venho lá de cima, radiante, nos braços da alvorada, para cobrir o seio de uma rosa, e fazê-la contente em tal instante, que vale a pena vê-la tão ditosa, e ver florido o coração da terra engolfada no pranto.... Tudo em torno de mim tem mais viço e frescor... Eis como sou feliz: ou na campina, ou no cimo da serra verdejante, sou sempre uma esperança cristalina... O meu brilho... não tem competidor..."

Calou-se o Orvalho. E a Lágrima? Coitada.. Ela rolada na terra úmida e fria nada ousava dizer.

"E que respondes, tu? Perguntou-lhe a Estrela com sarcasmo.

A Lágrima, tocada pelo róseo condão do entusiasmo, com voz de mansidão, resolveu responder:
"Nasci para o sublime... Sou o perdão no crime, e a vibração no amor... Bailo no olhar risonho da alegria... Brilho no olhar tristíssimo da dor. Sou a alma da ternura e da harmonia. Sou até estribilho, na lira soluçante dos poetas... Sou oração nos olhos dos ascetas. Sou relíquia de mãe em coração de filho, sou lembrança de filho em coração de mãe... Fui eu, um dia, juro-lhes por Deus; que ensinei a saudade a soletrar adeus... Não vivo sobre seios perfumosos, nem colos orgulhosos, na ostentação efêmera do luxo; porém, penetro no espírito do mundo... seja do rei, do sábio mais profundo... do rústico, do mais vil, do pecador, do santo... até nas faces do Senhor, um dia, já rolei... Eu, Lágrima pequena, penetrei no coração de Deus e fiz abrir-se extasiado o pórtico dos céus... Não sei quantos pecados já lavei...'

Calou-se a Lágrima. ...
O silêncio a tudo isso contemplava serenamente na vastidão vazia...
A Estrela subiu aos céus, escondeu-se sob uma espessa nuvem, e chorava arrependida...
A Pérola desceu à profundez dos mares e também chorava...
O Orvalho, tremulando sobre a relva, também chorava...
E a Lágrima... sorria.

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